Oncologia, estas são as ameaças que espreitam

A abordagem do câncer tem dado passos de gigante na última década, graças a um maior conhecimento da biologia e genética do tumor e a chegada de medicamentos inovadores precisos e eficazes. No entanto, o preço desses medicamentos, a desigualdade e as dificuldades para que cheguem ao paciente são as ameaças que deve passar para a oncologia

Os oncologistas Javier Cortés e Enrique Grande, coordenadores do III Fórum “A Oncologia Médica em 3 dias”. Foto cedida

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E os que têm que lidar com essas ameaças são os oncologistas, como Javier Cortés, diretor da Unidade de Mama, tanto no Institute of Oncology (IOB), como o Hospital Ramón y Cajal de Madrid. Este doutor queixa-se, entre outras coisas, dos entraves que existem dentro dos hospitais para que o paciente acesso a esses medicamentos.

Por isso, e junto ao oncologista Enrique Grande, chefe de Oncologia Médica do MD Anderson Cancer Center, em Madrid, e a Transworld Editors, organizaram, até hoje, a III edição do Fórum “A Oncologia Médica em Três Dias” para que os profissionais possam debater não só problemas e desafios, mas também para que encontrem respostas para as interrogações que surgem diariamente na prática clínica.

“O programa foi desenhado por e para oncologistas e outros de saúde relacionados, mas sem que haja intervindo a indústria farmacêutica, embora desinteressadamente contribuiu economicamente, mas sem a intervenção”, explica a EFEsalud Javier Cortés.

Para este médico, especialista em cancro da mama, a oncologia hoje em dia é marcado pela desigualdade no acesso aos fármacos de nova geração entre comunidades autónomas, entre suas províncias e, até mesmo, entre hospitais, onde alguns medicamentos não chegam a estar disponíveis.

“Não há igualdade no tratamento do cancro em Portugal, e torna-se um alarme para a saúde”, ressalta.

Oncologistas: como Donos de suas prescrições?

E outra ameaça é, aponta para o fato de que “os médicos em geral e dos oncologistas em particular, cada vez sejamos menos donos de nossas prescrições”. O que significa que dependem das comissões dos hospitais, que são os que decidem, uma vez que o fármaco foi aprovado, se colocam à disposição dos pacientes.

“Os médicos cada vez temos menos peso nas decisões terapêuticas”, lamenta, ao mesmo tempo em que propõe que se dê aos serviços de oncologia dos hospitais capacidade para gerir esses fármacos.

Para Javier Cortés, “a solução não passa, porque esses medicamentos são dadas em uns sites sim e outros não, a solução é que cheguem aos pacientes que realmente precisam” e que mostrem eficácia. E com esta afirmação relaciona-se com outra das ameaças da oncologia: o preço dos medicamentos inovadores.

“É um outro alerta, devemos ser responsáveis para o consumo, há que lidar com tudo mas só que de verdade possa casar, trabalhar com aqueles fármacos que têm benefício para os pacientes”, garante.

Reconhece que o sistema público de saúde “está afogado porque o preço de alguns destes fármacos é absolutamente zona industrial”, embora reconheça que a criação de um produto de nova geração (como as terapias dirigidas e as inmunoterapias) “é francamente caro”.

A falta de recursos para a pesquisa é outro de seus cavalos de batalha. “Portugal não é um país que aposta na inovação e na investigação”, salienta.

A gestão dos medicamentos orais, outra das ameaças

Os medicamentos orais contra o cancro estão a ganhar terreno na dispensação com conta-gotas em um hospital de dia. E o que é uma grande vantagem para o paciente, torna-se uma ameaça para a oncologia médica pela irregular gestão que se faz este tipo de medicamentos nos hospitais.

Assim o pôs de manifesto em uma mesa redonda do fórum “A Oncologia Médica em Três Dias”, a dr.ª Ana Santaballa, vogal da Junta Diretiva da Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM), que alertou contra a idéia errada de que se trata de medicamentos que podem ser prescritos em qualquer consulta.

Por isso, SEOM, em 2017, abundou em seu posicionamento: os medicamentos orais são da competência do médico oncologista, seja qual for a sua administração, e não de qualquer outro especialista.

E deu várias razões:

  • A formação do oncologista na gestão integral do paciente.
  • Com a falsa crença de que os medicamentos orais são menos tóxicos, já que apresentam alguns efeitos que você tem que saber segurar.
  • Para poder avaliar a resposta do paciente ao fármaco.
  • Porque o médico sabe que o tratamento de suporte para que a droga contra o câncer funcione e seja menos tóxico.
  • Porque você pode fazer uma adequada seleção dos pacientes que vão se beneficiar desse fármaco.
  • Porque lideram ensaios clínicos.

Santaballa mostrou os resultados de uma pesquisa que reflete que em 81% dos hospitais outros serviços, que não são o de oncologia, que prescrevem tratamentos orais contra o câncer. Entre eles destacam-se urologia, radioterapia e digestivo.

Por sua parte, o diretor de Relações com as Comunidades Autónomas de Farmaindustria, José Ramón Luis-Yague, assinalou as desigualdades que existem entre as regiões no acesso a medicamentos.

Aludiu também à dos preços e sua assunção pelo sistema público. Neste sentido, assegurou que o problema não é o custo, já que o gasto em medicamentos oncológicos se mantém em torno de 10% do gasto farmacêutico público.

O representante de Farmaindustria pediu “prevenção à aqueles provenientes dos alarmistas que falam do problema da sustentabilidade do sistema público de saúde, não há problema de sustentabilidade e no futuro, haverá menos ainda, graças à medicina personalizada”.

Luis-Yague apontou, no entanto, que é necessário “mudar o foco do sistema e orientar para os resultados em saúde”.

De acordo com os dados de Farmaindustria, entre 2009 e 2016, foram adoptadas em Portugal 43 novos medicamentos oncológicos (33 deles nos últimos quatro anos) com mais de meia centena de indicações.

No Brasil, 37% dos ensaios clínicos, tanto os promovidos pela indústria farmacêutica como por entidades públicas, desenvolvidas no âmbito da oncologia, contra 24% da média europeia.

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